sátira de um profano

Soletram-se em demasia pequenos infernos dantescos. Com nossa roupagem ética apontamos o dedo na cara do outro, seja esse preto, branco, amarelo, cego, louco ou qualquer um que ameace nosso canto de segurança. Posso bajular o ímpio, demonizar o sagrado, satirizar o profano, eu posso.

Quem nos impõe sua verdade morre pela mentira. Em tempos de ações que acometem uma comoção nacional, somos obrigados seja pela lei seja maioria, a posicionarmos contrariamente aquilo que julgamos segundo nossas concepções de bom ou ruim, péssimo. Quem nos impõe sua verdade, goza a miséria do outro quando suas vontades são saciadas e assim deixando a vocês apenas o som roto do arroto pós-coito por ti vilipendiado. O que nos resta é levantar, tomar um banho e seguir no outro dia como se nada houvesse acontecido, pois é assim com essa gente, que não tem memória.

Vocifera-se o hoje ungido de ódio. Em tempo real fico atemorizado com cada repetição do mesmo. Como uma mesma notícia pode causar diferentes emoções. O ser social deveria pelas regras sociais a agir conforme o pré-estabelecido em contrato social, àquele que insiste em agir marginal ao STATUS QUO, receberia a punição conforme o grau de dano que causou, seja ele o mesmo para o dano causado a uma pessoa ou várias.

Ao sair de casa, dá um beijo na sua mãe e fala para que ela fique com Deus. Ao caminhar rumo ao ponto de ônibus que a levaria para o trabalho, ela não cumprimenta em resposta de bom dia a um senhor de idade sentado logo de manhãzinha em frente a sua casa num banquinho de madeira que ele próprio criou. Não deu lugar a uma senhora idosa em pé à sua frente, falou mal da amiga para uma amiga, postou uma charge sou Dilma 13 (não resisti), e voltou pra casa a tarde sendo um reflexo da sua manhã.

Vamos apontar menos, criticar menos, ouvir mais, cantar mais, respeitar mais, gritar menos, viajar mais, trabalhar mais, ler mais e mais, sorrir muito mais, chorar as vezes, dar bom dia olhando nos olhos, tirar um momento no dia para cultuar seu Deus, vamos ser o humano do Ser Humano, praticar o Ser da mesma expressão. Odiar menos, estudar e aprender todos os dias, correr mais sem destino e obrigação, completar um livro e contá-lo para os outros, sua ideia, vamos ser mais solidários, dividir sentimentos, dizer-te amo a um amigo, ao seu animalzinho de estimação, vamos.

Célio Bernardo – @kiekgaard

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Conjugar

Palavras ditas combinam verbos e adjetivos e um pingo de metáfora. Na esperança de ser um livro esquecido numa estante, envolto com as lembranças de um dia de leitura de minhas páginas, iam decifrando-me em cada palavra, vírgula e pontos finais. Ali na mesma estante, amparado por Lorca e Shakespeare, estou à espera de ser lido novamente.

Não se separa sujeito do verbo. São nossas emoções o verbo, aquilo que nos torna uma miríade de sentimentos envoltos na descoberta de significados vários, correspondentes a cada uma de nossas paixões. Somos objetos pensantes, somos despojos de guerra, somos vírus. O sujeito absorto em si mesmo, não se separa do poder, não se separa do amor, não se separa da maldade mal calculada, o egocentrismo unilateral per si, reina como bobo da corte num salão destituído do riso, onde os olhares não são amigáveis, onde a confiança exala humildade, cheira a âmbar e fede a hipocrisia, contida num choro sem lágrimas, espelhada numa loucura racional.

Vamos conjugar. Acasalar as palavras, curar a genética analfabeta, o estúpido poeta, vamos num só movimento peristáltico unir os continentes, libertar a democracia, vociferar nossas emoções em silêncio, para não acordar a verdade e não morrermos de medo do inferno dantesco, enfiado goela abaixo com gosto de Emulsão Scott. Conjugue.

Enfim, o calor do meu abraço é quente demais, emoções de gelo evapora, a verdade se aquece, Demócrito ri, da lágrima o sal se separa, pupila seca envolta num véu de desilusões.

E o canália aqui ri, do falso profeta letrado, que consegue por milagre de alguns centavos, discernir numa singular frase, todo seu pensamento mal digerido, mal elaborado e infelizmente posto. Um riso triste, pesado, um riso não conjugado.

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Estou sitiado em mim

Estou sitiado em mim. Tenho medo de sair e me aventurar nesse mundo. Posso encontrar pela frente muita iniqüidade, ignorância e dor.

Estou preso porque vivo no medo imposto, entoado em todos os lugares. Vários medos se somam numa metástase constante, generalizada, que entra no meu corpo através das imagens e sons, num “noticiário” qualquer de fim de tarde. Preso porque sou refém sem crime. Se meu voto para garantir a bolsa, conta como crime, sou povo. Tenho pouco e o pouco que tenho me foi cedido à custa do meu suor frio, impotente diante de minhas necessidades criadas para mim, na ignorância de ter uma necessidade inerente, para a minha existência.

Na cabeça o juízo final se instala. Fecho os olhos para enxergar a verdade enquanto abro os olhos e escuto o cheiro da indiferença recalcada, da polidez grosseira ao olhar-te de cima para baixo, do contrário seria bom. O juízo focado na ideologia própria que foge da do senso comum, me invento enquanto solitário e me acho enquanto parte de uma minoria, vivendo minha verdade enquanto acordado e sonhando minha realidade no meu sono profundo.

Meninas, quem disse para vocês que para Ser tem que ter bunda? Primeiramente fazendo jus a uma separação, no que consta ser considerado homem e não moleque, nada contra a esse estilo escolhido de ser. O que nos torna enquanto seres é nossa capacidade de raciocínio, nossa incrível capacidade de transmissão de conhecimento, capacidade de se COMUNICAR com outros da mesma espécie e também com outras. O que nos torna é nossa capacidade de perdoar, de acolher, de defender nossas idéias com idéias, de defender nossa existência, o que nos torna é poder saber fazermos musica, rir, se apaixonar, trabalhar, ser civilizado. O que nos melhora é nossa capacidade de absorção de conhecimento através da leitura por exemplo. Leituras essas que consistem em romances, novelas, dramas e comedias de qualidade. Teatro shakespeano eu aconselharia. O que nos torna não é tamanho da bunda, capacidade de acasalamento acima da media. O culto ao corpo feminino é aviltante, mercadológico, fazendo do gênero um item de barganha corpo x dinheiro, prostituição de uma imagem criada para formar um padrão de venda e agraciar uma determinada geração, com um gosto padronizado, onde todos os interesses do vendedor estão voltados simplesmente para o lucro, à custa é claro de vossa ignorância. A máxima vale para políticos em geral. Uma mulher inteligente desperta não somente um, mas todos os nossos sentidos.

Por isso estou sitiado em mim. Mesmo com uma Copa do Mundo em meu país prefiro estar aqui. Sinto-me mais seguro. Imagina uma família que passa por vários problemas. Que seus filhos não vão bem na escola, que não sabem ler e interpretar corretamente. Você passa por dificuldades com a saúde de sua esposa, não tem um carro para levá-la ao hospital mais próximo, falta comida na sua mesa, o essencial para o trabalho do dia a dia que falta. A rua da sua casa asfaltada está cheia de braços no chão. E orelhas e pernas. Você pega suas economias e ao invés de ajeitar sua vida familiar, pois daria o total montante de sobras, mas não. Você dá esse dinheiro ao seu vizinho mais pobre para que o outro vizinho que mora defronte a você, esse mais rico e influente, que será seu Obi-Wan na corrida pelo trono. Ê brasilzão.

Célio Bernardo – @kiekgaard

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ser Humano

Quero ficar sóbrio. Ébrio no constante vulgarizo a fala num tom ditoso, errante notívago, noite como companheira a assoprar seu gélido bafo.

Ser humano de todo gene, o meu parece que sofreu algum tipo de modificação genética ao ser confeccionado em alguma divisão não equitativa. Pois me deparo de frente e verso com todas as paixões humanas e sinto que cada vez mais, me acostumo com seu jeito de ser. Parecem-me todas elas aceitáveis de uma forma não coerente e racional. Falta-me conteúdo lexical para dar conta dessa conexão idéia-sinapse-velocidade-aceitação. E de quê estou falando? Simples.

O egoísmo. Cada vez que sinto o cheiro dessa paixão, vejo que a hipocrisia caminha de mãos dadas. Rezo um pai nosso, oro, medito ou qualquer coisa do gênero, mas o que é meu não posso dividir, e quanto mais tenho mais sou, mais me torno, mais conquisto.

A mentira. Sim o ser humano possui uma capacidade ímpar de poder criar em sua cabeça, histórias que para elas fazem todo sentido, mas o outro não acredita em tamanha criação. Sim somos ensinados desde pequenos, que devemos ter medo, não criticar, ser humildes e respeitar os idosos, não roubar e por ai vai. Beleza, onde está tua verdade?

O poder. Mata-se por ele.

O cinismo. Teatro vazio.

O falso puritanismo. Daí a Cezar o que é de Cezar. Ao proletário seu salário justo. Para a puta seu pagamento digno, para Thoreau a verdade. Para o ímpio o trono.

Creio que ser ser humano, é saber ter escolhas. Todos possuem suas escolhas mediante o caminho que resolve percorrer. Diante de um paradigma ou paradoxo, de uma escolha hipoteticamente falando importante, a escolha que se faz carrega consigo significações e significados variados. O que nos torna é ter a capacidade de no final de todo trajeto percorrido, se o resultado não foi o esperado, por uma escolha ruim, mal pensada ou mesmo nem sequer cogitada, erguer sua cabeça e seguir em frente, te diferencia de um todo.  A mesma onda de choque será diferente para variadas pessoas que te cercam. As mais próximas a você sofrem mais, se machucam mais, aquelas mais distantes, distantes de perigo iminentes, de problemas cotidianos, estarão à salvo. Escolhas.

Quero ficar ébrio. Sóbrio constante me torna mais triste.

Célio Bernardo @kiekgaard

 

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E a copa acabou

E a copa acabou. Um sentimento de impotência se apega a um corpo falido, pois sua esperança de sorrir findou-se. Sua esperança de vender mais alguns sanduíches se esvaiu no capitalizar-se do futebol, onde valores passados, como garra, amor pelo país e bla bla se banalizou.

A copa acabou. E vejo pessoas tirando as bandeiras dos capôs dos seus carros, como se arrancam a própria pele, deixando nua uma alma, deixando-me ébrio, por não entender o porquê de não cogitarem maciçamente, uma cobrança para a resolução das nossas misérias, que são escondidas e aviltadas na forma de números de estatísticas de campanha. Que povo é esse que abaixa a cabeça para um deus, se diz correto moralmente e não consegue enxergar o roubo da democracia, da liberdade, da moralidade, do dinheiro comum? Mas poxa vida, se esse time não ganhar essa copa aqui em casa, o que vai ter de gente suicidando, devendo casa, carro, esposa e filhos, se prostituindo e pessoas políticas que exercem a política como capa da politicagem, continuam onde estão.

E a copa acabou. Não ouve vitória, infelizmente. Os hospitais continuam sendo o que são. A educação do brasileiro continuará sendo o que é, pois se continua praticando o lema do é meu. Que inveja do lema Xhosa, da partilha como um todo, infelizmente não somos todos índios, somos também egos e cores. Justo e misericordioso é o Seu Manoel da padaria, que vende pãezinhos à R$ 0,15 e dá marmitex pros mendigos, esse sim.

A copa acabou. Não era para aquele alemão estar ali na frente daquela “bala perdida”, ironicamente ex-integrante quando jovem da juventude hitlerista, que destino cruel esse, ou não. Foram no total dezessete manifestações, com 354 mortos e outros 671 feridos, passeios turísticos nas favelas, como animais numa vitrine, sendo apresentados aos gringos, que estavam por alguns minutos cheirando a pobreza, fotografando a miséria e levando de recordação um chaveirinho artesanal, feito para ajudar a compensar o salário do pai no final do mês.

Gol do Brasil. Silêncio geral porque ainda faltam dois gols para o empate, estamos no segundo tempo e Felipão em pé ao lado co campo roe suas unhas como sinal de desespero, porque sabe que ele pode morrer. Ele faz a última substituição, troca Fred por Bernard, O garoto-propaganda, jogador de vez em, como é Copa camuflou-se com sua camisa amarela, e agora José? Ah não!!! Quarto gol da Espanha, agora sim, 44 minutos do segundo tempo. Mas espera ai, gol contra da Espanha, ainda dá pessoal calma. A Espanha solta a bola, recuaram, gollllll, contraaaaaaa, impossível essa minha seleção jogando em casa é imbatível!

E a copa acabou.

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