Humano, demasiado humano.

Vagueio entre o ontem e o hoje, seguindo uma trilha racional deixada pelos antepassados. Que constructos nos definem, se a cada momento vivenciamos uma mudança brusca no modus operandi do ser humano não tão humano. Estamos à mercê de um caos social, de uma anomia que insiste e persiste em nos contaminar, como um vírus mortal e letal.  A violência que se instala num indivíduo, que foi vomitado nesse mundo e como vômito espalha-se sem controle para um controle geral das massas, o poder estatal que escraviza e censura. Paixão humana, a ganância.

Satirizado e aviltado, caminho em linha reta, com um “tampão” nos olhos e uma lágrima sempre por cair. Vociferam nas minhas orelhas coisas que meu ouvido enxerga, no que minha boca muda balbucia, fragmentos de idéias incompletas, pois me foi tirado o direito de uma boa educação, com qualidade, ministrada por pessoas competentes, fragmentos de idéias incompletas pois tive fome, tive a visão de minha mãe aos prantos, de meu irmão faminto, de meu preto pai, desempregado. E assim num cenário de Maiakóvski, cena de um teatro dramático lançou-me à procura de um emprego, e nas valias seguidas, larguei a escola e o livro fechado em cima da estante de madeira corroída por carunchos obesos, larguei minha idéia e sonho, para completar os espaços vazios de meu estômago de operário. Eu disse Sonho no singular, pois até isso nos é tirado, o direito de sonhar.

Colocaram dentro de um liquidificador, os direitos humanos, mais a estupidez humana, com uma pitada de egocentrismo e hipocrisia, duas gotas de esperança, e ignorância a gosto. São-nos servidos todos os dias, nos horários nobres para eles, essa mistura em doses homeopáticas, e gostamos e desejamos mais, pois é uma droga poderosíssima, legal e necessária.

Mata-me de prazer, com o modelo que me é sussurrado, tal qual o diabo seduzindo numa via crúcis, ao som de Bach. Me é dito em formas várias, o que é certo, o que é para ser consumido, que roupa me deixará na moda, subserviente aos encantos, maligno com o outro, porque tenho e você não. Sim, somos pegos em armadilhas orais poderosas, onde a cura está ao alcance do seu bolso, o paraíso envolto na sua cintura prestes a detonar. Sim, somos levados a acreditar que meu Deus é mais poderoso que o seu, e se eu ouso pronunciar minha negação à sua verdade absoluta, impositiva e arrogante, sou achincalhado, apedrejado, enforcado, caluniado, decapitado, torturado psicologicamente e fisicamente. Afinal de contas, O meu cura homossexualismo, e o seu? O meu criou a AIDS, o holocausto, o dilúvio em 3d, criou o céu e a terra, criou os animais, a fome, a dor, a morte, a idéia de pecado, criou o medo, andou pela terra espalhando a palavra, passou frio e fome, teve seguidores e um a um somaram-se doze, seu nome ficou gravado na história, esse era Mitra, Deus sol, da sabedoria e da guerra, na MITOLOGIA persa. Modelos e mais modelos, qual devo seguir, se tenho TV a cabo sigo um caminho, se tenho somente a “Globo” sigo por outro caminho, que paradigma danadinho esse.

O cursor pisca, esperando a pronta resposta dos meus dedos comandados pelo meu cérebro desperto, penso em tudo que vi hoje, seja na rua, no trabalho, nas pessoas que vi, com as que falei, penso no filme que assisti, na comida que  me alimentou, e tudo que consigo imaginar é que vivemos num desequilíbrio constante entre quanto ganhamos e quanto gastamos. Essa lacuna espacial entre as duas somatórias é o fator de causa, da importância da ignorância nos lares. Pois é.

Vou tomar minha dose diária e tentar encontrar a rua sem saída num Plexus de Henry Miller.

Célio Bernardo @kiekgaard

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O som se partiu em dois

O som se partiu em dois, deixando um rastro desconexo de timbres. Temos vícios em falar que não possuímos vícios, cada um com sua conjectura de verdades, com os braços abertos para o outro, um abraço vago, vazio de valor e recheado de hipocrisia. O som se partiu em dois, deixando como herança esse som roto que é sua arrogância em achar verdadeiro seu ponto de vista.
Temos que conviver com isso, não adianta. Vão amá-lo(a) pelo que você é e pelo mesmo motivo vão detestá-lo(a). Como antídoto leve consigo sempre à mão, sua indiferença, pois assim você conserva sua prudência, mantêm seu domínio sobre sua razão e garante uma não dor de cabeça.
Como rastro de um avião supersônico deixado ao sabor do vento, se desfaz aos poucos, garantidos por uma rápida volatilidade. Assim uma metade de som se compõe sem sua metade. Mas segurando em sua mão, meio que desajeitados por causa de caldo de manga, catada no pé, depois de várias tentativas frustradas, reinando soberano os fiapos da mesma em seus dentes, sei que o som não é dividido, multiplicado, subtraído, ele sim subtrai da Nona, uma sinfonia digna de um show. O som se partiu em dois, deixando um rastro de esperança partida e outro de esperança na outra.
Pois é.

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Meus Pés

Meus pés andando por uma rua distante, não distinguia o trajeto que percorria. Apenas seguia. Meus pés viram muita sujeira espalhadas pelo chão e ele não entendia o porquê de tanto lixo jogado pelos cantos. Uns desses lixos num passado bem recente, tinham família, tinham filhos, alguns desses lixos tinham esposas, tinham sonhos. Meus pés simplesmente não entendem.
Como pode um ser classificado como humano, desprezar, maltratar, matar, oprimir, escravizar seu próprio semelhante. Numa conjuntura de fatores seguindo adiante de cabeça baixa, meu pé pára, pensa que mesmo num meio igualitário, mesmo que comungando todos de uma mesma religião, de um mesmo STATUS QUO, de uma mesma filosofia, de um mesmo sistema monetário onde todos teriam a mesma soma, mesmo diante de todas essas variáveis, teríamos dentre nós um “Judas”, teríamos aqueles que levam ao máximos as paixões humanas, ganância, maldade, paixão, poder, luxúria, arrogância, narcisismo, onde a solidariedade é um luxo construído num sistema desigual, para designar certos valores falsos de uma elite verdadeira. Isso é o verdadeiro sentido de solidariedade, pois, se tivéssemos não um sistema igualitário, mas pelo menos um em que o Estado funcionasse e uma sociedade que fizesse jus ao termo que carrega, sociedade com espírito igualitário, ai sim teríamos um sistema social verdadeiro.
Descanso meus pés às margens de um rio sem nome, sua correnteza é triste sem cor que apesar de rápida sua correnteza não transmite força. Sua melancolia reside nos resíduos que sem permissão ou alvará, foram despejados, estuprando sua natureza, aviltando sua nascente. Esse ser que gera e carrega vida, esse rio imerso num corredor da morte à espera de seus voltz finais. Descaso meus pés pensam. Arrogância de ter o poder sobre um ser indefeso, talvez. Simplesmente idéias e ações sem nexo.
Época feliz essa, de comemorações religiosas tanto a Jesus quanto Baco. Descontruíram uma história desconstruída e banalizaram um ritual considerado sagrado. À mercê dessa conjuntura, meus pés caminham sobre um terreno inóspito para eles. Já tinham visto pessoas colhendo do lixo o almoço do meio dia numa tela plana de 32 polegadas, num programa televisivo voltado para o entorpecimento das mentes, na sua dose diária sempre depois das 19h00min horas, tendo seu ápice às 21h00min. Já tinham visto essa imagem em cores, mas com uma sutil diferença, não sentiam o cheiro da realidade, não conseguiram com seus narizes de pés, sorver o odor fétido, do rebaixamento de um ser considerado humano a um mero rato humano. Dói o cheiro.
Enfim voltando pra casa, mais tristes e menos esperançosos, meus pés vislumbram em cada casa luzes, tons em vermelho e branco, cheiros de comidas variadas e à gosto, meus pés ouvem foguetes de artifício explodindo nos céus em comemoração de um nascimento. Eles ouvem em rádios, televisores, computadores, celulares, caixas de alto-falantes das igrejas, que a esperança de um dia melhor, que a união dos povos é um sublime ato de amor, que devemos seguir com retidão no nosso trabalho diário, ser bom para com nossa família, enfim, ouvimos palavras de amor, enxergamos cores e luzes e foguetes e comemoração a esses ideais, mas esquecemos de colocar em prática. Na teoria tudo funciona harmoniosamente, porque não necessita de nossa ação. Falar é muito fácil, o agir é o tormento dos nossos pés.
Deitados agora em sua havaiana paraguaia, meus pés vão terminar sua leitura, do último capítulo do livro A Sangue Frio, do Capote. Que chulé!

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Utopia disforme

Numa constância de fatores, resolvo começar uma revolução interna. Não vou mais seqüestrar valores que não me pertencem, num diálogo grego, onde as emoções são resultado do bom comportamento e andamento do STATUS QUO. E meu status não está assim tal qual o do “outros”.
Hoje resolvi para de querer ver algum programa em rede aberta. Cansei de ser objeto-indivíduo, numa platéia coabitável dentro da ideologia do Panis ET circenses. Não somos frutos de bitz nem voltz, então porque o comportamento mecânico em detrimento do orgânico?
Hoje resolvi não me contaminar mais pelas músicas hoje entoadas nas ruas de qualquer cidade brasileira. E também não vou me deixar seduzir, por uma bunda rebolando, em qualquer monitor e ser alvo de frases, que aviltam todo o contexto do feminino e ainda por cima, chamarem-na de a nova funkeira/Lolita do Brasil. Cú todo mundo tem, então basta somente mostrá-lo na TV, mídia social ou algo do gênero, para fazer sucesso nesse país de ²³£²³£¹²³£°¢¢£¬£ que eu amo?
Hoje, porque hoje NE? Antes tínhamos festivais de MÚSICA, tempo em que para fazer sucesso era necessário TALENTO. Hoje temos talentos de um latifúndio dorsal, mostrado nu para um público paralisado, hipnotizado, pelos responsáveis em divulgar um padrão de beleza, embasados e reforçados nos moldes reproduzidos na televisão. Meu deus.
Falando nisso, hoje resolvi não mais discordar dos programas religiosos que veiculam. Resolvi adotar a todos de uma vez só, em suas diferenças e igualdades, sem me dar ao trabalho de procurar a verdade de cada uma delas. Resolvi aceitar. Agora me encontro com algumas duvidas apesar de ouvir que duvidas não são boas. Se fez na minha cabeça vazia temperada com muita alienação e chôio a gosto, de que Hórus (Deus dos céus na mitologia egípcia – concepção se deu através de um pássaro e um humano, morto diga-se de passagem). Ai vem Mitra, nascida em 25 de dez, crucificada e também Attis Krishna, Alá, Dionísio Xuxa, Pelé, Panicats, Ratinho, Neymar, pela vontade de Cágado, deus das águas do rio guaxinim, que deságua no Amazonas, para quê tanto Deus? Não seria muito mais prático, simples se fosse só um? “Porra Laerte, não fode”.
Também resolvi hoje aceitar a opinião alheia sobre meus atos, minhas ações enfim a minha vida. Vou levar em consideração qual atitude teria sido melhor empregada em tal situação, que roupa deveria estar usando para se parecer isso ou aquilo. Vou agarrar como critério de verdade, não opiniões que aviltem a condição de uma cultura e sim aquela a que ele está querendo me empregar, por fazer parte do contexto de maioria, burlar, levar vantagem, furar, se vangloriar disso, sou esperto assim, sou o máximo, sim! Sou parte de um todo afinal.
Hoje resolvi não mais olhar minha página no facebook. Está me deprimindo ver tantas imagens fortes, tantas frases copiadas, realçando uma falta de personalidade em patamares catastróficos, imagens desejando feliz isso e feliz aquilo, não se tem mais o calor do calor humano, não se tem mais a perspectiva do sofrimentozinho da resposta, feita ao vivo e a cores, hoje sou popular pois tenho cinco mil amigos que nem em 98,79%, você foi a alguma festa de aniversário, ou foi nas lojas americanas comprar sonho de valsa, ou mesmo pediu cola no colégio ou brincou de pique – esconde, ou recebeu bronca da mãe dele ou dela. Nem isso. Não, não vou mais entrar constantemente “no meu face”, hoje.
Hoje resolvi ir com mais freqüência aos shoppings de Uberlândia. Andar pelas ruelas charmosas e encantadoras, com atrativos mil para seus olhos distantes da razão naquele momento. Sim ali existem pequenos detalhes escondidos no todo, que sua mínima desatenção será mortal para sua existência. Você será sugado para dentro de um pote contendo dos mais variados sabores agradáveis introduzidos por hipnopédia no seu cérebro. Será jogado (a) novamente nas vielas do shopping, só que agora você foi contaminado (a), não lute, não se desespere, aceite como estou aceitando agora, seja feliz, don’t whorry, be happy.
Hoje resolvi ler mais. Não aquelas leituras mundanas que falam de territórios longínquos, numa Rússia fria, desolada onde num trago e outro de vodka barata, se sentem as dores de suas terras agora distantes. Nem vou pousar meus olhos num poema Whaltiano de uma rua erma da Califórnia. Nem citar um morto nas costas, de um barbudo qualquer. Nem remoer de prazer, luxúria e vontade ao ler o relato de uma mulher em Bukowski. Sim resolvi não mais contemplar o desgosto da natureza humana, verbalizada literalmente por uma caneta tinteiro, numa folha em branco, outrora preenchida por leveza, pureza, harmonia, amor, contentamento. Desde o momento em que nos tornamos sapiens, perdemos nossa inocência.
Minha utopia seria mais afirmativamente verdadeira se a utopia do outro não transpusesse a minha. A partir do momento em que nos confrontamos, surgem as ideologias disformes dentro de um mesmo contexto social, ou não, onde o que deveria ocorrer de fato seria o sincretismo de duas ou mais idéias dialéticas, sem o preconceito, ai sim, nesse exato momento a humanidade pararia de agir com estupidez, hipocrisia, maldade, ferocidade, ganância, arrogância, mediocridade, avareza, e seríamos mais humanos uns para com os outros, pois a felicidade é muito maior quando compartilhada.
Resolvi.

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Perdas e Ganhos

O barulho dos trovões me acordou. E com o meu despertar sigo em linha reta por onde não sei ainda, o final.
Com o brilho morno das lembranças, imagens se formam numa constelação de risos, choros, angústias, raiva, desespero, amor, carinho… idiossincrasias entoadas como mitos, rituais que se formam, civilizações que ruíram deixando história, roupas que não servem mais, sapatos desgastados e jogados fora, chiclete que insiste em grudar na minha ponte safena.
Não sei mais o que é música. Conjecturaram em minha cabeça que música são repetições de sons monossilábicos ritmados nos pingos que caem de sua baba, nos levam na contra mão de uma ideologia feminina, que desde antepassados anos, lutam para minimizar o preconceito enraizado no DNA ideológico feminino, de que são inferiores, que seus lugares são na cozinha, que mulher não podia votar, não tinham direitos, eram estupradas nas fábricas no início da revolução industrial e não podiam sequer manifestar seu repúdio, pois era uma prática comum. Digam-me vocês mulheres, se o que ouvem hoje, em forma de Rap, Hip Hop ou Funk, se não constituem essas letras, um sentimento pior do que um estupro ideológico ou físico, pois rouba de vocês uma conquista que ninguém teria o direito de aviltar. Não sei qual é o pior, se a música que debocha ou a menina que rebola.
Ontem teve o sorteio das chaves da Copa do Mundo, no nosso querido e amado Brasil. Serão jogos emocionantes, com lances emocionantes e no intervalo do primeiro tempo, iremos à cozinha, preparar pipoca e comentar sobre a atuação dos jogadores canarinhos. Sentaremos novamente defronte ao televisor e esperaremos ansiosos a vitória. Depois disso o efeito se vai, voltamos do nosso sonambulismo, acordamos do nosso sonho, num país que é o mesmo, somente um pouquinho mais burro, mais doente, mais corrupto, esperando ávido o início da novela das 8.
O Google muleta globalizada. Ontem tive um trabalho de escola, e procurei em todos os livros que dispunha em minha casa, tirei algumas opiniões com meus pais, pois queria reforçar a minha teoria e concretizar o relatório. Já na escola, procurei na biblioteca uma “Barça”, e no tópico específico, achei as respostas, lendo página por página todas as 12. Hoje fui fazer um trabalho, “joguei no Google” abri a página, copiei e colei, imprimi e entreguei. Onde em algum momento fiz alguma leitura crítica? Onde em algum momento foi-me cobrado o senso de interpretação? Google, emburrecendo alunos desde 1998.
Chove lá fora.

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