ciúmes da lua

…a lua desperta inveja até em postes.

Descobrimos todos s dias o quão ignorante somos ao perceber que podemos mais. Sermos mais tolerantes, sermos mais amigos, sermos mais. Temos a idéia nonsense de que a felicidade é tangível, de que podemos alcançá-la, não. E em alto e bom som ela está presente em todos os momentos de nossas vidas, basta reconhecerem. Um pai ao segurar seu filho, alimentar de dois em dois minutos um gatinho recém nascido e órfão, com 200 ml de leite preparado, amornado, e num colo acalorado receber sua recompensa depois de miados agudos e hipnotizantes e ter o delicioso silêncio imperando. Ficar roxo de tanto rir, e rir da vermelhidão alheia, o mojito voltou depois de um grande passeio. Até um poste de luz tem sonhos…sonha em ser lua, pois ninguém sonha com postes e sim com luas. O momento não pode ser equacionado com o tempo de espera pela sua tão oblíqua visão, seja amplo. Comungue sua felicidade é bom termos testemunhas, relativizada são os sentimentos mundanos, ver que a verdade está mais no olhar que naquilo que é olhado, olhe com paixão, derramem seus olhares, vulgarizem seus muros e joguem fora os tijolos. Não cuspa sacrilégio ao sorrir diante de uma sensação falsa de conquista de algo embasado no seu valor comercial, imposto, que você calcula pelo valor monetário estampado em cifras, comece prestando atenção em seus pais e nos olhares que eles trocam, no carinho que sentem, no tom de voz que eles usam ao te chamar em algum canto da casa, no cuidado que eles tem com vocês, no calor do abraço que dão, agora tentem valorizar isso comercialmente, principalmente se um deles não esteja mais aqui, reconheça esses momentos. Aposente sua visão do outro e cultue seu próprio Eu, a vida do outro não te interessa, você sentirá uma paz tão grande que por momentos confundirá com felicidade.

Sonhe mais com postes!

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Üntermench

Não sei onde foi parar o ser do humano. Somos constantemente bombardeados por reportagens, imagens, falas, fotos, filmes de toda a espécie, num amalgama de sensações e sentimentos. Tenho a impressão que com o passar dos anos, com o avanço tecnológico os fatores negativos superam os positivos, ou é só impressão?  Nietzsche, além de desprezar a democracia, abominava o liberalismo, o socialismo, o feminismo e o cristianismo, vistos como manifestações de debilidade, como expressão de uma vontade majoritária de carneiros, de fracos e de covardes, dos inferiores (Üntermench) enfim, complemento com o sistema capitalista, forjador de alienados de toda espécie, alienados de suas vontades, seus sonhos, seus desejos mais íntimos. Complemento quê que junto a ele, se aproxima do processo totalizante, a indústria cultural, que arrasta milhões para um cemitério, mas não arrasta os mesmos pés para a batalha campal contra um político corrupto, leiam-se vários. Somos selvagens em pele de homem ou homens em pele de selvagens?

Não sei onde foi parar o ser do humano. Absorto pelo que leio nas redes sociais, tento proteger minha boca, calar meus ouvidos, proteger minha moral, encapar minha ética contra essa doença transmissível do jeitinho brasileiro de ser, a que somos todo santo dia, copular com o último sentimento contido no fundo da caixinha de música de Pandora, dançando sob o véu da ignorância. O poder da retórica é grandioso, tolo aquele que acha que o detém, absorto em seus egos gordos, alimentados por esqueléticos mortais, nus em sua dignidade de brasileiro. Quisera eu ter uma Espada do Cloud…

Não quero ser famoso, quero ser importante. Importante para quem me importa, seguir o caminho que me ensinaram bravamente diante das circunstâncias, batalhar todos os dias contra a imprudência alheia, abraçar todos os dias com amor os DJs com gelo nas mãos, a Cigana com olhos de Capitu, a lua e sua chuva de uma pedra só, abraçar meus olhos, meu coração e meus sentidos, pois não são mais meus, não quero ser famoso quero ser importante para quem me importa. Fernando pessoa não era nada, não queria ser nada, mas guardava em si todos os sonhos do mundo, não chego a tanto, pela humildade ao poeta e pela pequenez do meu ser. Posso apenas querer um só, ele já me satisfaz.

E por fim, aos informados desinformados de plantão, ao utilizarem algum livro sagrado para alguma religião, o faço por completo, não utilize pequenos trechos escolhidos a bel-prazer para saciar seu desejo apequenado de tentativa de menosprezar o outro, resigne-se na sua inferioridade perante o Deus que tu próprio cultua, e seja mais tolerante com aquele que não lhe fez mal algum, pois a sua verdade é uma falácia.

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…sono que não vem, antítese dos meus sentimentos.

Quantos pés. Com eles eu vejo e escuto as mazelas de que presencio todos os dias, seja andando de um lado para o outro, vociferando teorias a ouvidos atentos;  ando para a cozinha em busca de algo na geladeira, para saciar meu estômago que ruge orquestralmente. Com ele vago pela praça, passando por onde muitos passam.

Meus pés me conduzem para onde apontam minhas necessidades. E como temos necessidades hoje em dia. Chegam-me aos montes, informações sobre produtos que não vou comprar, imagens de mercadorias que insistem ser do meu agrado aliada à necessidade. Avanço tecnológico viciante que fascina, captura, compra e sacia. Somos levados a acreditar que colocando-se um copo com água em cima de uma televisão, e ouvir do outro lado dos pixels, alguém ritualizar um modos operandi que há muito se é usado para manipular, seduzir com a salvação, aquele carro, aquela joia, aquela viagem, aquela moto, aquele homem, e por que não aquela ação, e depois bebê-lo como uma água purificadora. Mas qual é o seu pecado?

Meus pés que correm. Correm para chegar em algo ideal, seria o padrão de beleza que é inserido nos nossos pensamentos. Quero um corpo legal para o verão e engordar debaixo de um ededron no inverno, comendo pipoca com Nutella. Correm para chegar a tempo de ver a novela, e esperar com angústia e desespero a cena que o mocinho dá uma surra no bandido, e você vibrando no sofá. Aquele bandido representa meu chefe, minhas contas sem fim, meus sonhos adiados, meu amor no freezer, meu livro acabado, meu restinho de sono. Correm para depositar o dízimo, pois o banco já vai fechar, pois se não conseguir pagar hoje essa bolha que me cerca em forma de proteção divina, se extinguirá até a compensação. Pois é não posso correr o perigo. Perigo de quê?

Agora os pés dormem.

…seus pés correm para Cícero, os meus para Nina.

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Deitada sobre os meus braços…

“Deitada sobre os meus braços. Tentando proteger meus ouvidos das feridas causadas pela hipocrisia, falsidade, superficialidade. Barulhos. Seres em crescimento físico sem cor proferindo com orgulho as odiosas palavras  herdadas. Sempre dei a liberdade ao que me parecia obscuro, porém é impossível dar uma chave mestra a alguém que prefere se embebedar da raiva dos outros e não de sua própria. Já estou acostumada à dor de ouvir o ruído sem princípio.
Um dos piores equívocos que cometemos é caracterizarmos um desventurado que perdeu a voz como “mudo”, já que esta palavra nos induz ao mais terrível pensamento de que ela não se expressa. Estes guerreiros, porém, mostram-se mais fortes que nós, pois lutam para esboçar a dor e a alegria que sentem sem o benefício que temos. Nisto pergunto-me, estou errada ao caracterizar estes jovens ao meu redor como mudos?
Eles apenas falam, e não usam a voz, e muito provável não possuem uma. São apenas reprodutores, e nunca criadores ou renovadores. Não se expressam, somente preconizam o pensamento de outro. Se acaso vissem a realidade com suas aprisionadas perspectivas excêntricas iriam machucar e inferiorizar as personalidades heterogênicas dos seres?
Em algum canto da sala, o proferir de algum discurso por base no infundamentado “porque sim”. A falta de empatia ao amor obrigado a ser aprisionado. Duas mulheres unidas. Dois homens conjugados. Uma afetividade que se faz forte, pois mesmo sendo repudiada por muitos mantem-se viva e protesta por seus direitos.
No meio dos grupos, o rebaixamento do “feminino”. A prepotência de algum homem e aceitação induzida de uma mulher. Alguma “frase” (acredito peco ao usar este meio de expressão ao caracterizar os dizeres tão fétidos) que adota a vítima como propulsora de sua tortura é motivo de risada. A renegação a liberdade e a aceitação da violência. Preferem a prisão à luta por algo que é seu por direito. Tentar mostrar um mundo melhor a alguém que procura o aconchego dentro do seu casulo é a dissipação de gritos e sinais no vácuo do escuro espaço.
Ouço passos fortes, e por um instante paira o silêncio e tento esquecer-me do ataque de barulhos que diariamente sofro, mas as cicatrizes não me deixam apenas apagar o que infelizmente se passou pelos meus ouvidos. Ao levantar a cabeça, vejo o olhar do meu professor fixo em mim. A única que dormia na classe. Levantei o corpo, esfreguei as mãos nos olhos. O pudor me invade e me alerta “preserve tua imagem, finja-se de muda”.
Preparei-me para o pior, porém subestimei o poder cortante da adaga que se empenharia ao máximo para me ferir.
– Não me interessa quem você é, a única coisa que me deve é o meu digno respeito. Finja que eu sou o dono da tribo dos primatas e coloque-se no lugar de fêmea submissa que você é. Caso contrário, saia da minha sala e volte a seu habitat natural.
Este algoz, que sempre  se rebaixara a quem o pensar imitar, tentava satisfazer-se da dor do meu pranto que escorreria sobre meu rosto,  do pedido de piedade através do gemido de agonia, ou do sofrimento pelo rubor de sangue que escorreria a partir de minha ferida. Iludiu-se ao pensar ter visto em mim a arma que usaria para atacar-me. Não digo isso por todas as negras que batalham, já que cada uma de nós luta do jeito que pode; porém aquele ataque eu já sentira antes, e forcei-o a cicatrizar, e, com isso, aprendi a revidar-lo aos que se prostrarão em um caixão de orvalho sem terem ao menos sentido o mundo por seu próprio tato,  mostrando-lhes o orgulho que tenho por ser negra e mulher. O orgulho que tenho ao dizer que passo por várias injustiças e jamais desisti de reivindicar o meu lugar, o meu respeito e o que é meu por direito. O orgulho ao dizer que a resistência e a força de meus antepassados flui em mim. O orgulho de dizer que tenho irmãs que sofrem do mesmo jeito que sofro, e que estão ligadas a mim sempre que sentimos dor. O orgulho de fazer o que muitos não fazem, se aceitar do jeito que é, e viver com força que não se mede pelos privilégios dados pela sociedade, e sim pela excentricidade e personalidade de cada ser.
Seu anseio de me ferir acabava de se quebrar ao encontro do meu olhar que conjugava  indiferença e insignificância. Declarei o início de sua derrota ao ver que sua feição mostrava a decepção e o desmoronamento de sua expectativa. E quando vi-me satisfeita, provando uma pitada da apimentada dança do doce ao amargo da superioridade,  saí da sala a procura da diretoria, a fim de finalizar meu golpe deixando-o contorcendo-se,  enquanto ouvia o seu gemer de dor em forma inumerados pedidos de perdão. Quando passava pela porta ele agarrou o meu braço e desferiu-me um tapa no rosto.”
Por: José Augusto – augusto9838@hotmail.com

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apenas…

O som de um grito ecoa pelas cavernas de meu cérebro. Ouço constantemente colocarem a culpa no outro pela incapacidade de reconhecer o próprio erro e a falta de vontade de galgar mais um degrau. Falta fé ou coragem?

“como posso eu com minha moral, viver num mundo moral, com pessoas imorais?”, acho que devo retroagir, gostar de novos gostos, usar como moda novas modas, ouvir o mesmo som do inicio ao fim, entoar como cântico da felicidade o funk, seja ele ostentação, vociferante bis aviltador do gênero feminino ou simplesmente levantar com todos diante da onda boçal que se forma num estádio de futebol qualquer, construído com ouro e forjado a força bruta do proletário ignorante. Pegando de leve naquilo que eu faço parte. Retroagir para pelo menos sentir o gosto volátil, em estado gasoso, da felicidade e assim me sentir com autoridade, parte do todo.

Um mundo moral e hipócrita, que arrota hóstias e cospe no seu semelhante na esquina a pedir comida. Um mundo habitado por seres que caminham de olhos fechados, seguindo uma mesma reta paradoxal, onde o sentido desviante causa revolta geral, vômitos expelidos de pupilas acusadoras, pelo simples fato de dizer não concordo. Mundo moral onde a lei é seguida por poucos, mundo onde ser o mais esperto, rápido, corruptor, te tornas rei, seja ele do futebol ou dos baixinhos, te torna o babaca cultuado.

Como posso dividir valores e somar excelência, se me encontro vendado para a verdade, surdo para a solidariedade e mudo para a incoerência? Construímos mais armas para matar nosso semelhante do que remédios para curar. Somos sabedores dos perigos que são para nossos recursos naturais a mão que ceifa, destrói e aniquila e mesmo assim tapamos os ouvidos para o grito natural.

Pedimos impeachment para nossa escolha, pedimos redução dos anos para uma criança poder assumir a culpa de outro maior, pedimos rapidez e cobramos agilidade se somos tolerantes com a falta de limites, com a impunidade em colarinhos brancos pagos por nós.

Somos escravos, temos nossas coleiras alinhadas e apertadas por bits, chips e microchips, por placas mãe, por redes de interatividade paranormal, normal e anormal, para certas idades. Ah se no meu tempo de criança a internet existisse! Como seria lindo minha francesa.

Perverso e sistemático é o meu gosto. Gosto pelas mazelas, o gostar de ver o humilhar televisivo e jornalístico que sacia meu desejo insano pela miséria do outro, pela desgraça do outro. Briga-se por qualquer coisa que lhe foi dita como critério de verdade e você na altura de seu penhasco, defende-a até a morte, seja ela brutalizada ou internalizada. O meu livro é melhor, o meu deus é mais forte, você arderá no inferno, seja ele dantesco ou normal, meu carro mais caro, minha roupa mais branca, meus dentes mais Colgate. Enquanto isso na novela das nove mais um padrão é criado.

Enfim perverso é o mundo para você lá fora, mais infeliz, duro e rude. Apenas abra a porta de sua caixinha e saia de cabeça erguida não se rendendo à luz que ofusca sua pupila e resistindo à voz entoada no seu ouvido, apenas…

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