Deitada sobre os meus braços…

“Deitada sobre os meus braços. Tentando proteger meus ouvidos das feridas causadas pela hipocrisia, falsidade, superficialidade. Barulhos. Seres em crescimento físico sem cor proferindo com orgulho as odiosas palavras  herdadas. Sempre dei a liberdade ao que me parecia obscuro, porém é impossível dar uma chave mestra a alguém que prefere se embebedar da raiva dos outros e não de sua própria. Já estou acostumada à dor de ouvir o ruído sem princípio.
Um dos piores equívocos que cometemos é caracterizarmos um desventurado que perdeu a voz como “mudo”, já que esta palavra nos induz ao mais terrível pensamento de que ela não se expressa. Estes guerreiros, porém, mostram-se mais fortes que nós, pois lutam para esboçar a dor e a alegria que sentem sem o benefício que temos. Nisto pergunto-me, estou errada ao caracterizar estes jovens ao meu redor como mudos?
Eles apenas falam, e não usam a voz, e muito provável não possuem uma. São apenas reprodutores, e nunca criadores ou renovadores. Não se expressam, somente preconizam o pensamento de outro. Se acaso vissem a realidade com suas aprisionadas perspectivas excêntricas iriam machucar e inferiorizar as personalidades heterogênicas dos seres?
Em algum canto da sala, o proferir de algum discurso por base no infundamentado “porque sim”. A falta de empatia ao amor obrigado a ser aprisionado. Duas mulheres unidas. Dois homens conjugados. Uma afetividade que se faz forte, pois mesmo sendo repudiada por muitos mantem-se viva e protesta por seus direitos.
No meio dos grupos, o rebaixamento do “feminino”. A prepotência de algum homem e aceitação induzida de uma mulher. Alguma “frase” (acredito peco ao usar este meio de expressão ao caracterizar os dizeres tão fétidos) que adota a vítima como propulsora de sua tortura é motivo de risada. A renegação a liberdade e a aceitação da violência. Preferem a prisão à luta por algo que é seu por direito. Tentar mostrar um mundo melhor a alguém que procura o aconchego dentro do seu casulo é a dissipação de gritos e sinais no vácuo do escuro espaço.
Ouço passos fortes, e por um instante paira o silêncio e tento esquecer-me do ataque de barulhos que diariamente sofro, mas as cicatrizes não me deixam apenas apagar o que infelizmente se passou pelos meus ouvidos. Ao levantar a cabeça, vejo o olhar do meu professor fixo em mim. A única que dormia na classe. Levantei o corpo, esfreguei as mãos nos olhos. O pudor me invade e me alerta “preserve tua imagem, finja-se de muda”.
Preparei-me para o pior, porém subestimei o poder cortante da adaga que se empenharia ao máximo para me ferir.
– Não me interessa quem você é, a única coisa que me deve é o meu digno respeito. Finja que eu sou o dono da tribo dos primatas e coloque-se no lugar de fêmea submissa que você é. Caso contrário, saia da minha sala e volte a seu habitat natural.
Este algoz, que sempre  se rebaixara a quem o pensar imitar, tentava satisfazer-se da dor do meu pranto que escorreria sobre meu rosto,  do pedido de piedade através do gemido de agonia, ou do sofrimento pelo rubor de sangue que escorreria a partir de minha ferida. Iludiu-se ao pensar ter visto em mim a arma que usaria para atacar-me. Não digo isso por todas as negras que batalham, já que cada uma de nós luta do jeito que pode; porém aquele ataque eu já sentira antes, e forcei-o a cicatrizar, e, com isso, aprendi a revidar-lo aos que se prostrarão em um caixão de orvalho sem terem ao menos sentido o mundo por seu próprio tato,  mostrando-lhes o orgulho que tenho por ser negra e mulher. O orgulho que tenho ao dizer que passo por várias injustiças e jamais desisti de reivindicar o meu lugar, o meu respeito e o que é meu por direito. O orgulho ao dizer que a resistência e a força de meus antepassados flui em mim. O orgulho de dizer que tenho irmãs que sofrem do mesmo jeito que sofro, e que estão ligadas a mim sempre que sentimos dor. O orgulho de fazer o que muitos não fazem, se aceitar do jeito que é, e viver com força que não se mede pelos privilégios dados pela sociedade, e sim pela excentricidade e personalidade de cada ser.
Seu anseio de me ferir acabava de se quebrar ao encontro do meu olhar que conjugava  indiferença e insignificância. Declarei o início de sua derrota ao ver que sua feição mostrava a decepção e o desmoronamento de sua expectativa. E quando vi-me satisfeita, provando uma pitada da apimentada dança do doce ao amargo da superioridade,  saí da sala a procura da diretoria, a fim de finalizar meu golpe deixando-o contorcendo-se,  enquanto ouvia o seu gemer de dor em forma inumerados pedidos de perdão. Quando passava pela porta ele agarrou o meu braço e desferiu-me um tapa no rosto.”
Por: José Augusto – augusto9838@hotmail.com

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apenas…

O som de um grito ecoa pelas cavernas de meu cérebro. Ouço constantemente colocarem a culpa no outro pela incapacidade de reconhecer o próprio erro e a falta de vontade de galgar mais um degrau. Falta fé ou coragem?

“como posso eu com minha moral, viver num mundo moral, com pessoas imorais?”, acho que devo retroagir, gostar de novos gostos, usar como moda novas modas, ouvir o mesmo som do inicio ao fim, entoar como cântico da felicidade o funk, seja ele ostentação, vociferante bis aviltador do gênero feminino ou simplesmente levantar com todos diante da onda boçal que se forma num estádio de futebol qualquer, construído com ouro e forjado a força bruta do proletário ignorante. Pegando de leve naquilo que eu faço parte. Retroagir para pelo menos sentir o gosto volátil, em estado gasoso, da felicidade e assim me sentir com autoridade, parte do todo.

Um mundo moral e hipócrita, que arrota hóstias e cospe no seu semelhante na esquina a pedir comida. Um mundo habitado por seres que caminham de olhos fechados, seguindo uma mesma reta paradoxal, onde o sentido desviante causa revolta geral, vômitos expelidos de pupilas acusadoras, pelo simples fato de dizer não concordo. Mundo moral onde a lei é seguida por poucos, mundo onde ser o mais esperto, rápido, corruptor, te tornas rei, seja ele do futebol ou dos baixinhos, te torna o babaca cultuado.

Como posso dividir valores e somar excelência, se me encontro vendado para a verdade, surdo para a solidariedade e mudo para a incoerência? Construímos mais armas para matar nosso semelhante do que remédios para curar. Somos sabedores dos perigos que são para nossos recursos naturais a mão que ceifa, destrói e aniquila e mesmo assim tapamos os ouvidos para o grito natural.

Pedimos impeachment para nossa escolha, pedimos redução dos anos para uma criança poder assumir a culpa de outro maior, pedimos rapidez e cobramos agilidade se somos tolerantes com a falta de limites, com a impunidade em colarinhos brancos pagos por nós.

Somos escravos, temos nossas coleiras alinhadas e apertadas por bits, chips e microchips, por placas mãe, por redes de interatividade paranormal, normal e anormal, para certas idades. Ah se no meu tempo de criança a internet existisse! Como seria lindo minha francesa.

Perverso e sistemático é o meu gosto. Gosto pelas mazelas, o gostar de ver o humilhar televisivo e jornalístico que sacia meu desejo insano pela miséria do outro, pela desgraça do outro. Briga-se por qualquer coisa que lhe foi dita como critério de verdade e você na altura de seu penhasco, defende-a até a morte, seja ela brutalizada ou internalizada. O meu livro é melhor, o meu deus é mais forte, você arderá no inferno, seja ele dantesco ou normal, meu carro mais caro, minha roupa mais branca, meus dentes mais Colgate. Enquanto isso na novela das nove mais um padrão é criado.

Enfim perverso é o mundo para você lá fora, mais infeliz, duro e rude. Apenas abra a porta de sua caixinha e saia de cabeça erguida não se rendendo à luz que ofusca sua pupila e resistindo à voz entoada no seu ouvido, apenas…

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Paradoxos

De punhos serrados vejo tanta miséria ao me redor. O cheiro hipócrita exala de suas atitudes. Como proceder diante do paradoxo que você vocifera como se fosse verdade universal, que diante da recusa se volta contra os seus? Seres Humanos em sua essência dita cordial vivendo em sociedade ou seres ditos humanos, em sua essência vivendo numa selva dita desenvolvida?

De punhos semi serrados vejo pessoas fugir desse conformismo. Me parece reconfortante saber que o bem, mesmo que em doses homeopáticas, pode alcançar um público em sua semi-puberdade, que preocupa-se em rebolar mais, gritar mais alto, vomitar ódio alienado a alguém por detrás de uma mesa, contando pontos de audiência. Ingenuidade ou esperança?

De medo em medo, caminho passo a passo, olhando para minha sombra única em formas no chão. Se junta a minha, outras e outras,  agora todas me parecem iguais e me perco num único vazio escuro. A luz não consegue adentrar, a cegueira chega ao meu cérebro, somente ouço me dizerem o caminho a seguir, me prometendo segurança, dando-me força para seguir em frente, e assim sou mais uma massa de manobra, dentre outras.

Restrinjo minha educação para falar da fala. Dinheiro não compra felicidade, pois se argumentar que manda buscar, não o é mais, e sim um produto moldado ao seu perfil alimentado pelo ego egocêntrico hipócrita vil e bajulador que é me desculpe sua pessoa. Não se É pelo que se tem ou pode ter, Somos pelo deixamos de positivo, mesmo você, eu, nós sermos desconhecidos, não importa, caráter não se compra ou manda buscar.

Leia mais, alimente com a leitura seu pensamento, anabolizante natural da cultura. Enfim, dito isso, abro mais um pote de Nutella.

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E assim..

É dado a largada. E assim corremos, as vezes juntos, noutras sozinhos mas corremos. Passamos minutos, horas, dias talvez competindo. Competimos em grupo caótico desvairado, buscando HSs, HPs, buscamos numa caixa virtual, itens preciosos para “tancamento” de nossa vontade superlativa, seja por arma ou arma ou arma mesmo. Imagina se conseguíssemos trazer isso tudo para nossas reais vidas? Será que a busca por nossos objetivos se embasa por comparação à busca frenética de uma raridade?  É dada a largada…

De sincretismo vocálico vasto, ou seja rsrsrs, com vários “dialetos”, nosso clã vai aumentado em membros, tem aqueles que xingam muito, aqueles que arrotam, aqueles que são “nubs”, aqueles que são GGs, aqueles que são bebês ou adultos, aqueles que ouvimos somente a respiração no TS, os de Nick engraçado, mas com certeza todos torcem por todos, nos confrontos quem “morre” fica em desespero porque não pode estar ali dentro da tela, para proteger, socorrer, levantar, dar “life”, gritamos com a tela na esperança de você ouvir, ali ali ali mas ali onde pelo amor de Deus, e você toma um tiro, todos, com certeza expressam unissonamente Ahhh!! Ou quando vc ganha BOOOOAAA. E assim é dada a largada…

Perdemos, perdi foi ali no finalzinho do confronto, nessa semana passada, não me recordo contra qual clã, e pude perceber pelo nosso TS, o sentimento da voz de cada um de vocês, talvez até nos zuaram, talvez curtiram com algum de vocês por ser amigo pessoal, mas os outros não tem a magia que temos. E na tristeza da derrota, se ouve uma vozinha láaa no fundinho do seu tímpano, no TS, vamo assassinato?

Joaquim era um menino de uma comunidade, que no Brasil também é conhecida como favela,aqui na minha cidade, Uberlândia-MG , e meu aluno. Ele disse-me um dia que queria jogar warface mas não sabia como fazer e assim fui ensinando o muito pouco que eu sabia, ele estava no primeiro clã comigo, e como a sua educação não tinha sido uma das melhores, ele não sabia falar as palavras em inglês e muitas em português, então assim no TS, quando ele estava jogando com a gente, todos, todos falavam as bombinhas deixadas no chão, claymore, assim algumas vezes, por constume talvez use essa expressão. Ou  algum nome de arma, que chamávamos todas de garrucha ou espingarda, confesso que era engraçado.

E assim é dada a largada…

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Irmãos de voz

Somos todos iguais. Não há máxima mais completa em sua essência do que essa. Vagando pela internet, a procura de um jogo para as horas de ócio não criativo, eu vejo em uma página de jogos, o Warface. Baixo e instalo e começo meus primeiros passos no pseudo-treinamento e já logo de início já gosto da classe médico, pelo espírito de cuidados, liderança, solidariedade.

Começo sem um clã, uma espécie de família que temos no jogo, compartilhado por irmãos invisíveis, onde só nos  comunicamos através de um chat on line durante o jogo e também pelo TS (team speaker). Começo a adicionar amigos na mesma condição que a minha, iniciante ou na língua do jogo noob. Começo o ter experiência e sou chamado para um clã, minha primeira das duas famílias que tive e tenho. Dois amigos que fiz, dois irmãos, Anzinho e Over, que mantenho contato mesmo depois de sair do clã, vou conhecê-los pessoalmente ainda, pois só lembro de suas vozes.

Ser médico no jogo, minha classe favorita é ser um louco às vezes. É ver aquele simbolozinho vermelho em contagem regressiva e você sabe que seu companheiro precisa de você. E sai em disparada. É ouvir toda hora o grito “méeeeeeedico”, desesperado. Para praticamente todos, quando se “morre”, vendo a tela vermelha, você pensa baixinho, vemm médico, dá ress (fdp), Rsrsrs

Na minha família atual, fui convidado pelo líder do clã a fazer parte da mesma. De início no primeiro contato com meus amigos, só digitava para me comunicar.  Depois de dois dias jogando com eles,  você sempre fica imaginando como eles são, onde moram, essas coisas banais. Quando arrumei uma gambiarra com meu fone, consegui entrar no TS do clã, e fui recebido por todos, com tamanha cortesia, que fiquei com vergonha. Aos poucos, sob o som de arrotos, gritos, latidos, piadas, recuperações devido à falta de estudo, originado pelo som roto e agudo nos tímpanos, da música de início do jogo, isso vicia, rsrs. Ouvi suas vozes. De todos os estados, de bah a oxenti, finas e grossas e intermediárias, contei um pedaço da minha vida para alguns, ouvi coisas engraçadas e tristes de outros, mas o que engraçado é que agora, nas salas de inícios de rodadas, você tem sempre um irmão, confirmado pelo nome do Clã, acima de seu Nick, PHOENIX.

Somos irmãos de vozes…

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